Amazônia nas lentes da Adriana Nepomuceno

Por Adriana Nepomuceno –

Selvagem

Selvagem é o instinto primitivo onde há a ressurgimento do animal sublimado existente no ser humano, que com as comodidades da contemporaneidade são amortecidos por não termos necessidade de uso e também por não adequar-se as normas de vigentes na sociedade. Isso se dá devido ao apelo de sobrevivência. Ergue-se o despojamento da previsibilidade, trilhamos pelas rotas do desprendimento. O risco torna-se um exercício do ser aliado a um impulso de conquista. Imagino que muitos se perdem no meio da floresta justamente pelo encantamento inevitável. É como um canto de uma sereia.

A Amazônia é o canto de uma sereia.

A paisagem é captada por todos os sentidos e nos percebemos outros ao perceber o entorno. A descoberta é dada pelo engatinhar em direção ao novo. Desenho em palavras esta curvatura corporal para explicitar o desnudamento intelectual implacável, resgatando a ingenuidade e curiosidade infantil como fonte geradora da ação de observar e explorar o meio, assim como para estabelecer uma proximidade ao deslocamento animal em quatro patas. Estabelece-se a busca territorial do novo num território tão próximo, tão nosso e tão desconhecido. Movimentos de entregas e renúncias.

Ao inserir-se na selva, fica nítida a importância da Amazônia, cobiçada pelo mundo inteiro. A diversidade impressiona. Simultaneamente medo e coragem se mesclam na busca de um equilíbrio, impulsionando querer ver mais, fazendo adentrar nas cores, nas formas, nos sons, nos sabores, nas texturas. Inclusão na origem da criação. Os códigos de sobrevivência são guias, sendo estes o conhecimento mínimo que se deve ter para atuar.

Ser camaleão que se molda as urgências.  Embrenhando-se em solos perigos e solúveis, pintando-se de verde. Camuflagem que rasteja sob a autoproteção. Cegueira diante do inexplorado. A cegueira da ignorância diante da sabedoria da natureza que te observa com milhares de olhos imperceptíveis materializados em espécies.

Sua beleza natural dilatam as pupilas, a riqueza daquele lugar explica a biodiversidade. Há uma infinidade de espécies comuns da região, outras raras já catalogadas, muitas em estudo e outras ainda não conhecidas. Há uma cultura viva para olhares sensíveis. A grandiosidade do local engloba uma variedade de detalhes onde a primitividade dialoga com a complexidade, o rústico com uma organização natural multiforme e é nesse conjunto de características que se traduz a essência da entrega que reside neste local, assim como a força da vida e a luta pela existência. A natureza é uma organização auto sustentável, nela está implícita a preservação pela renovação constante. O que possui vida hoje será alimento de amanhã. A morte é atuante, pois é uma forma de vida incondicional. Um exemplar de uma espécie da flora ou fauna virará alimento, gerando fonte de energia e sustentação para outros seres ou adubará o solo possibilitando a fertilização, além de permitir por suas condições de decomposição criar micro-organismos que atuam nas características orgânicas da região. Selva em decomposição, bichos em decomposição, Homem em decomposição. Decompõem e renascem. Movimentos transitórios de ciclos de classes.

A gama cromática é imensurável, sendo as variações tonais de verde as predominantes. A luz e sombra regidas pelo horário do sol ou da lua, ou pelos ventos que regulam o trajeto das nuvens, transformam a paisagem, revelam sua mutabilidade. Remete-nos aos conceitos e técnicas de pintura impressionista. O tempo cronológico e climático atua no espaço físico da selva, reorganizando-o e aguçando a percepção dos seres que lá vivem, tendo estes que adaptarem-se as suas condições para sobreviver. Sobrevivência não é somente estar à deriva da morte, mas principalmente é adaptarem-se as mudanças territoriais e comportamentais da vida.

O tempo na Amazônia transcorre diferente do nosso tempo. Ponteiros de contemplação que orientam a assimilação pela pele e pela mente. Bússola em risco evidencia um perder-se em si, à deriva das dúvidas, pisando em folhas amareladas de certezas. Viver é arriscar-se. O conhecimento torna-se um aventureiro. Princípios nômades definem a não existência da sabedoria sem a caça do obscuro e a rendição ao foco de pesquisa.  A teoria agoniza sem a prática.

Navegar na imensidão de saberes gerados por oscilações que acessam o próprio corpo em puro movimento, corpo residual de impressões sensitivas na assimilação do meio como um fator nutriente. A bagagem de informações armazenadas são medidas pela ação corporal do indivíduo que se propõe estudá-la.

A penumbra torna-se breu. A noite chega gritando. Retornos aos ninhos e tocas, outros seres notívagos os deixam. A audição prepondera. Os sons penetram cantos sobrepostos que produzem uma improvisada sinfonia que nos cala. O silêncio é imprescindível para se compunha um olhar de deslumbramento com os ouvidos. O silêncio inexistente da vida representa um estado de consciência plena do ser, mantendo-nos linear para aceitar as variações vindas do exterior. Conexão ao natural.

Entras o quanto podes entrar. Olhas o quanto puderes ver. Escutas o que te permites escutar. Comes o que teu paladar é capaz de absorver. Gostos diferenciados trazem sabores de culturas diferentes. Nosso estômago e todo o corpo são condicionados pelos nossos hábitos, pela nossa cultura, pelos nossos valores, pelas nossas leis. Lá na Amazônia, ou qualquer outra região do mundo em que seja diferente a forma como atuamos, percebemos estas diferenças não só a nível consciente, mas também inconsciente e o corpo administra estas mudanças, sendo que muitas vezes por não estar habituadas a essas o corpo sofre.

Observei a forma como eles tratam os animais, com o fim de estudo eles resgatem, travam um vínculo através da comida, mas esta só é dada uma vez, para o animal não perder o instinto de sobrevivência e para eles terem o controle de reprodução e de qualidade de vida. O sobrevoo dos pássaros traduz a condição de ser livre, pairar sobre o visto e calcular rasantes em lutas existenciais, pelo anseio de novos territórios. Transitoriedade da vida codificada num bater de asas. A insuficiência territorial que as mutações climáticas geram ocasionando as migrações que cumprem com princípios naturais de renovação e procriação para seguir sendo. Uma representação territorial de apelo ao mutável.

Há um equilíbrio sistêmico, uma lógica calcada nos movimentos interligados das espécies e na sincronia dos quatro elementos.

As águas apresentam-se escuras e rasas nos igarapés que invadem a selva; as águas esparsas das chuvas temporárias regam o solo fértil que exala o cheiro de terra e refazem a cor. O curso constante dos rios expressam a sua encorpada força, verdadeiras artérias que bombam e irrigam o corpo de toda a região. Encontro das águas revela a discussão entre rios que se encostam, mas não se mesclam. Definem suas áreas. Não são rios são ectoplasmas, corpos disformes e imensuráveis de energia atuante de uma potência fluídica. Leitos convidativos ao banhar-se em si.

Terra sigilosa, mistérios encobertos pela sobreposição de folhas trazidas pela gravidade de suas durações. Superfície irregular e ardilosa retêm em seu sulco as pegadas dos que ousam pisá-la.

O fogo que salva, aquece. Círculos em volta da fogueira. Fogo que não pode apagar, fogo alimento. Fogo luz e fogo proteção. Clareira na mata. Combustão de gases que reagem quimicamente. Fogo retido, que não se alastra. Fogo da vida e não da destruição.

Ar que invade os pulmões para realizar a fotossíntese da alma. Atmosfera de regeneração. Movimentos repetitivos de introjetar pela inspiração e projetar pela expiração. Ar que circunda e entranha-se em todas as espécies vivas.

Somos precários diante do meio diante a nossa bagagem de valores. Na Amazônia há um humano sem competições, um humano que interage com o ambiente e não o ambiciona, usufrui o que lhe é dado, nas proporções exatas, sem a arrogância do poder ou exploração desenfreada, mas com sabedoria. Transportam gente que vem gente que vai, gente que fica. Gente que chega e não olha. Gente que chega e se deslumbra. Gente dali, gente e mais gente. Estrangeiros, nativos, Eu.  Quando estamos lá não pensamos em voltar, nos sentimos pertencentes aquele lugar. Quando estamos aqui, tememos o retorno pela diferença, pelas exigências corporais e espirituais que se fazem ao chegar naquele local. Como foi possível adaptar-se as exigências? Sensação de conquista, superação de si.

Em viagem.

Passageiros à deriva da monumentalidade divinamente terrena.

A liberdade invade.

Eu sou Amazônia. E você?

Kula’i

Adriana Nepomuceno: sou uma artista e educadora apaixonada por meu país , que viaja para estudar e nossa cultura é também a cultura de outros povos de outras nações. Para mim o que importa é isso. Já fiz exposições nacionais e internacionais. Trabalho com pintura, desenho, fotografia e escrevo.

Leave a Reply

0
%d bloggers like this: