O mundo mudou, mas não sabe para onde vai - Brasileiros Sem Fronteiras

O mundo mudou, mas não sabe para onde vai

Por Nelson Dias

Reflexões em contexto de crise sobre o mundo que temos e o que podemos vir a ter

As atenções do mundo, no final de 2019, encontravam-se dispersas por um conjunto de fatores, cuja dimensão se afigurava preocupante.

A tensão no Médio Oriente e a ameaça de um conflito global ressurgiram após o assassinato do general iraniano Soleimani, por ordem do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Noutra parte do mundo, mais precisamente na Austrália, os gigantescos incêndios destruíram áreas vastíssimas, ameaçaram a extinção de diferentes espécies animais e voltaram a colocar em destaque os impactos das alterações climáticas. Na Europa, os temas fortes continuavam a ser o Brexit e as migrações das populações refugiadas.

Enquanto isso, na China, um agente minúsculo, apenas visível a microscópio, emergiu associado a alguns funcionários e consumidores do mercado de Wuhan, cidade de 11 milhões de habitantes no centro do país, importante polo económico com inúmeras relações internacionais. Tecnicamente chamado SARS-Cov-2, causador da doença Covid-19, esse agente transformou-se na verdadeira ameaça global, provocando mudanças estruturais em menos de três meses.

A Organização Mundial de Saúde viu-se obrigada a decretar a Covid-19 como uma pandemia, o medo instalou-se em muitos locais do planeta, os hábitos quotidianos de milhões de pessoas têm vindo a mudar, líderes de diferentes países tomaram medidas de choque a cada dia que passa, a atividade económica desacelerou, a globalização tem vindo a dar lugar ao protecionismo e ao nacionalismo e os mercados financeiros tiveram quedas abruptas.

Afigura-se desnecessário falar dos números associados à pandemia em curso. Esses mudam a cada minuto e tornam desatualizada qualquer redação sobre o tema.

Ninguém consegue prever o tempo que esta situação vai demorar, mas alguns dos seus prejuízos são desde já percetíveis. O primeiro e mais preocupante impacto é na saúde pública, com a impressionante capacidade de propagação deste vírus, fazendo novas vítimas transitórias ou fatais a cada instante, sem que exista qualquer capacidade de previsão relativamente ao abrandamento desta situação à escala mundial. O segundo é nas atividades económicas e nas relações geopolíticas, sendo sobre este que vou dedicar as próximas linhas de reflexão.

O vírus expôs algumas das fragilidades da globalização

A atual pandemia está a gerar uma enorme crise na cooperação internacional, ameaçando pontos essenciais do modelo organizacional que sustenta a globalização.

Mais de meio século de uma crescente interconectividade ditou um mundo marcado por gigantescos fluxos de bens, serviços, pessoas e dados. A macroestrutura económica mundial está assente numa rede, com uma forte dependência entre os seus diversos “nós”, sendo que algumas funções essenciais estão localizadas em polos específicos.

A título de exemplo, a atividade financeira possui o seu principal foco nos Estados Unidos da América, o que ajuda a explicar a crise financeira internacional espoletada em 2008, na medida em que foi nesse país que ela começou e partir do qual se expandiu.

A produção industrial, por sua vez, tem como principal centro de atividade a China, cuja capacidade produtiva ficou severamente afetada durante os últimos meses, em consequência das medidas restritivas impostas pela crise provocada pela Covid-19.

Ambas as situações, motivadas por razões distintas, têm em comum o efeito de cascata. Atendendo ao modelo de interdependência existente, problemas locais rapidamente se podem transformar em eventos extremos, tornando-se sistémicos, ou seja, provocando um abalo à escala global.

O modelo de globalização vigente assenta numa significativa divisão do trabalho entre regiões e países. Para tornar esta expressão mais entendível, basta pensarmos em alguns bens à venda no mercado, como é o caso do automóvel. O veículo que conduzimos resulta da junção de peças e componentes produzidos em dezenas de países.

Isto significa, entre outros aspetos, que: i) um carro é resultado de muitas fábricas espalhadas pelo planeta; ii) os locais de produção estão distantes dos locais de consumo; iii) se uma ou várias dessas indústrias falharem a entrega das suas peças ou componentes, o carro não chegará a ser produzido, pelo menos no tempo pretendido pela marca.

Apliquemos este exercício a muitos outros bens que usamos diariamente, como os eletrodomésticos, computadores e os telemóveis, e facilmente se compreende que os riscos inerentes a esta economia globalizada são muito expressivos. A falha de um dos “nós” pode fragilizar toda a rede.

O sismo macroeconómico que o mundo atravessa atualmente começou na China e rapidamente se propagou pelo mundo. Na sua origem está uma quebra da produção por causa das medidas de contenção do vírus em muitos países, como a quarentena e as restrições à mobilidade interna e internacional, bem como o fecho de espaços de produção e de comércio, entre outros.

Este choque, que muitos acreditam ser temporário, é no entanto bastante expressivo em alguns setores de atividade, como a indústria, o comércio, a restauração, o turismo, atacando também os mercados de ações financeiras e o preço do petróleo.

O crescimento do nacionalismo e do protecionismo

Entre as muitas tendências que podem emergir, para contrabalançar a crise deste modelo de globalização, destacam-se o nacionalismo e o protecionismo. Muitas das medidas de choque adotadas por diferentes países vão neste sentido, alguns por necessidade de circunstância, outros por convicção.

O discurso da desconfiança e do medo em relação ao externo, ao estrangeiro, aos “outros” tem vindo a ser reforçado nas posições políticas de alguns líderes, bem como nas conversas quotidianas de muitos cidadãos comuns. O populismo encontra terreno fértil nesta crise para prosseguir a sua estratégia de afirmação.

Donald Trump corporizou esta tendência ao decidir unilateralmente fechar as ligações aéreas à Europa, com exceção do Reino Unido, território que curiosamente tem demonstrado uma das atitudes mais negligentes na contenção do vírus.

O mesmo presidente norte-americano, crítico em relação à ciência quando esta defende a emergência climática que o planeta atravessa, foi o primeiro a tentar obter o exclusivo de uma vacina de combate à Covid-19, aliciando um laboratório alemão com o pagamento de elevadas quantias de dinheiro, assim demonstrando não apenas a sua conhecida falta de carácter, mas também, mais uma, vez o total desprezo pela comunidade internacional e pela cooperação entre países.

A crise provocada pela disseminação do vírus está, portanto, a ser aproveitada por alguns líderes políticos para impor as suas agendas nacionalistas e protecionistas, tal como outros aproveitaram a crise de 2008 para adotar medidas ultraliberais de redução do papel do estado e de reforço da supremacia dos mercados. Os oportunismos ideológicos encontram nas crises um vasto campo de progressão.

Outras tendências poderão afirmar-se depois da pandemia

Entre outras tendências possíveis para a reestruturação da economia global, identifico pelo menos duas que podem vir a ocorrer.

A primeira será partilhada pelos defensores do atual modelo de globalização. Esses poderão simplesmente vir a deslocalizar da China para outros destinos mais favoráveis as suas produções, mantendo no essencial a ampla divisão do trabalho existente e as cadeias distantes de produção e consumo. Países com situações políticas estáveis e com baixos custos de produção poderão vir a ser a alternativa ao “gigante asiático”.

A segunda poderá ser protagonizada por agentes económicos que venham a preferir produzir mais perto dos locais de consumo, como forma de limitar os riscos de fornecimento.

Esta abordagem estará assente na globalização das novas tecnologias da informação e comunicação, como a inteligência artificial, a robótica, as impressoras 3D, as redes de Internet e o teletrabalho, cuja aposta será na criação de redes e centros de produção adaptados a cada mercado, abandonando as cadeias de produção globais e criando interligações internacionais entre empresas locais. Nesta modalidade, o que viajará será sobretudo a informação e não as mercadorias.

Esta aposta implica, no entanto, enfrentar os elevados custos de produção de mercados como a União Europeia e os Estados Unidos, o que pode implicar o reforço da robotização dos postos de trabalho, estratégia que alguns vão adotar para se tornarem mais competitivos, entenda-se, alcançar maior capacidade de produção com custos de mão-de-obra reduzidos.

A relocalização da produção, com benefícios evidentes a vários níveis – entre os quais na dimensão ambiental, com a redução das emissões de gases para a atmosfera –, poderá, no entanto, acarretar outros tipos de riscos para as pessoas e para os Estados, como o aumento do desemprego e das respetivas prestações sociais, a par de uma redução de receitas provenientes das contribuições das empresas sobre os rendimentos do trabalho.

O mundo mudou e precisa de garantir alguns equilíbrios

Entre as poucas constatações que podemos fazer a partir desta enorme crise internacional, despoletada por um microrganismo, é que o mundo não é o mesmo que tínhamos no final de 2019. Nunca a expressão “um espirro do outro lado do mundo provoca um contágio deste lado” pareceu tão drasticamente evidente.

Isto acontece com o vírus e em cascata com as fábricas, as bolsas, as companhias aéreas, as fronteiras, os Estados e também com as pessoas. A Covid-19 e tudo o que acontece ao seu redor tornou-se no único tema da atualidade, instaurando um ambiente de incerteza e ansiedade.

A economia global foi colocada em quarentena à medida que o vírus se espalhou, contagiando novos países e aumentando as situações de rutura em múltiplas cadeias de produção e fornecimento. A pandemia tem vindo a originar dinâmicas de isolamento económico e dissociação, difíceis de imaginar há pouco tempo.

Os impactos desta crise far-se-ão sentir ao nível de cada país, em função da intensidade e densidade do problema, bem como da sua capacidade de autossubsistência, mas também a nível internacional.

Seja qual for o cenário e o rumo pós-crise, alguns equilíbrios são essenciais, entre os quais destaco dois. O primeiro aponta para a necessidade de uma maior relocalização dos processos de desenvolvimento, a par de uma intensificação da cooperação internacional em setores chave, entre os quais destaco a ciência e a preservação ambiental, áreas em que a competição se tem sobreposto à colaboração.

Os últimos meses demonstraram que o mundo, mesmo a diferentes velocidades, tem vindo a agir de forma rápida e em grande escala à crise de saúde pública gerada pela Covid-19. Tratar o clima com esta mesma emergência é algo essencial e isso exige uma aposta na ciência e na coordenação internacional.

Outro dos equilíbrios a garantir é o que remete para o progresso tecnológico e a humanização do mundo do trabalho. Sendo certo que a relocalização dos processos desenvolvimento poderá acelerar os investimentos na robotização de muitas funções laborais, como forma de diminuir os custos de produção, torna-se necessária uma ação reguladora dos Estados que trave as formas de inteligência artificial mais hostis, sobretudo quando essas representam uma ameaça à humanização de setores essenciais.

Autor: Nelson Dias é sociólogo e consultor

 

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