Esquecidos pelo Brasil, famílias de vilarejo no sertão ganham nova perspectiva pelas mãos de voluntários

A vida no Vilarejo de Baixas, no sertão do Moxotó, na divisa dos municípios de Inajá e Manari, no estado de Pernambuco, é um ato diário de heroísmo.

Isolados, em meio a uma cordilheira de montanhas de arenito, em um vale seco e arenoso, castigado por mais de sete anos de estiagem e sol impetuoso, os moradores venceram dias de miséria e desamparo e hoje podem contar uma nova história.

Baixas já foi considerado o vilarejo mais miserável do país, no início da década de 2000. O acesso a recursos básicos, como água e alimentos era inalcançável para muitas famílias. Até o final de 2009, um único poço abastecia as mais de 300 famílias que ali viviam.

Distante da maioria das residências, o poço era acessado por crianças que, no lombo de jegues, buscavam e ainda buscam água para suas famílias. A coleta de água é uma atribuição dada aos pequenos. O motivo? Elas pesam menos, logo o jegue consegue carregar toda a água necessária sem sucumbir. Um adulto montado no animal o levaria a morte por exaustão.

Segundo a assistente social Joana D’arc Henzel, idealizadora da ONG “Pão é Vida”, que tem sede e trabalho dentro da comunidade, até alguns anos atrás, a morte de recém-nascidos e bebês com menos de um ano de vida era frequente. “A falta de alimentos, de uma água de qualidade, tudo isso criava um ambiente de fome e desnutrição. Muitas mães “secavam” o leite muito rápido, não tendo nem como alimentar os bebês. Eram muitas mortes quando chegamos aqui”, revelou.

Joana e seu marido, Ronaldo Henzel, souberam pelo noticiário da história de Baixas é decidiram se dedicar ao vilarejo. Largaram a vida estruturada no Sul do país, para seguir uma vocação inata de ambos em ajudar.

Com um trabalho independente, que recebe o apoio de voluntários e de algumas empresas, o casal conseguiu, em menos de dez anos, fazer o que o poder público nunca fez. “Somos felizes aqui. As dificuldades existem, mas a gente enfrenta e sempre consegue. Não temos nenhum vínculo com governo, ou com política, o que recebemos vem de pessoas, voluntários, empresários com o mesmo desejo que nós, mudar a vida dessas pessoas”, disse Ronaldo.

E o trabalho gerou frutos. A sede, tão presente na vida dos moradores, hoje não existe mais. A fome também está erradicada, porém o acompanhamento e a distribuição de alimentos ainda são frequentes. “Estamos trabalhando para que essas famílias se emancipem, tenham condições de produzir e gerar a própria renda. É um trabalho de formiguinha, mas um dia acontece”, completou Henzel.

Com o apoio de parceiros, o casal já conseguiu a perfuração de seis poços no vilarejo, além da construção de algumas cisternas. Baixas, embora seja uma região de seca, está sob um grande aquífero, o Jatobá, uma reserva de água que tem condições de abastecer o sertão e o Nordeste pode décadas e décadas, tamanha a sua abundância.

Os poços trouxeram vida nova a comunidade. Com água acessível, a ONG começou a criar projetos de plantio de legumes e hortaliças e também pomares. A experiência deu certo, e agora os moradores já começam a cultivar seus próprios frutos e hortaliças. A melancia dá um contraste em alguns pedaços deste sertão queimado pelo sol, como recortes verdes sobre a paisagem.

A seca ainda castiga a região. As famílias levarão um tempo até deixarem de fato a zona de risco e vulnerabilidade social. No entanto, para um povo que estava sucumbindo à fome e aos elementos, a vida ganhou uma nova perspectiva com a chegada de tantos voluntários.

A água trouxe vida, trabalho, fartura, mas acima de tudo, trouxe dignidade a esse povo que é esquecido, invisível, alheio aos olhos do Brasil e de milhões de brasileiros.

Por: Pedro Rodrigues Neto para os Brasileiros Sem Fronteiras
Fotos: Pedro Rodrigues Neto
Publicado: 18-11-2017


Este é um relato sobre como um trabalho voluntário mudou a vida de uma região esquecida e de muita miséria no sertão do Moxotó.

Meu nome completo é Pedro Rodrigues Neto. Eu sou jornalista de Curitiba, Paraná. Estou em uma jornada pelos municípios mais pobres do país relatando a vida e a bravura do povo do nordeste, em especial do sertão. Viajo sozinho. Comecei no dia 23 de outubro de 2017 e termino somente em janeiro de 2018.

Se desejarem acompanhar esta jornada o meu blog é www.alemdomeuumbigo.com.br e a página no Facebook além do meu umbigo

Pedro Rodrigues Neto
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